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     Você, que é um conhecedor, sabe que o vinho nem sempre suscita apenas prazer, alegria e convivência amigável. Como tudo que desperta paixão, ele também é tema de debates inflamados, às vezes criando inimizades.

     Seria mais fácil se fosse tudo questão de gosto, mas não é tão simples. Como é uma atividade econômica agrária, que tem origem e reflexos culturais, a vitivinicultura também tem dimensões éticas. Quem assistiu a "Mondovino" tem uma ideia do que estou falando.

     Uma das discussões que teve protagonismo nas últimas décadas foi a que opôs "tradicionalistas" e "modernistas". E um dos mais importantes teatros de guerra foi a Itália, especialmente as respeitadíssimas regiões do Piemonte e da Toscana.

     Os modernistas tinham ao seu lado a tecnologia e o mercado internacional, cujo gosto, entre os anos 80 e meados dos 2000, valorizava os vinhos encorpados, extraídos e bastante maduros, com muita madeira e carga de fruta. Em resumo, os vinhos do crítico Robert Parker.

    Piemonte 

    No Piemonte, o centro do debate foi a madeira. Os grandes Barolo e Barbaresco são vinificados, tradicionalmente, em grandes e velhos tonéis de carvalho da Eslavônia (Croácia). Para agradar ao gosto corrente, muitos produtores passaram a usar pequenas barricas de carvalho francês novo, que deixa muito mais características de madeira no vinho.

     A discussão logo assumiu um caráter ético e político: os tradicionalistas argumentavam que a nova tendência era uniformizante, tornando os vinhos do mundo muito parecidos entre si, destruindo culturas ancestrais e favorecendo a grande indústria em detrimento do pequeno produtor. Um famoso vinhateiro de Barolo pintava em seus rótulos. "No Barrique No Berlusconi".

Toscana

     Na Toscana, além dos grandes tonéis, as próprias castas tradicionais foram questionadas. Com o sucesso dos Supertoscanos (vinhos feitos com uvas "internacionais", normalmente fora das áreas com denominação de origem), foi cada vez mais comum o abandono de cepas como Colorino, Canaiolo e Malvasia Nera. Para arredondar o caráter elusivo da Sangiovese, os produtores de Chianti Classico passaram a utilizar uvas francesas, especialmente a Merlot.

Montalcino

     O capítulo mais emblemático dessa batalha aconteceu em Montalcino: em meados da década de 2000, alguns produtores foram alvo de investigação por estarem adulterando a fórmula do Brunello, que, por lei, deve conter 100% Sangiovese Grosso, para misturar cepas internacionais.

    Hoje, com os ventos do mercado internacional soprando para outro lado, com menos padronização e mais interesse pelo terroir, os tradicionalistas equilibraram o jogo. O próprio ambiente está menos carregado, e as duas escolas até exercem influência mútua.

     Na VINDAME, uma importadora voltada para os vinhos de terroir, é natural que a balança penda para o lado da tradição. Nossos BarolosBarbarescos e Chiantis são a mais perfeita tradução de seus terroirs, passando muito longe de qualquer padronização.

Chianti Classico IT07.26.02      

     Mas, se você quiser fazer uma comparação entre os dois estilos, tenho uma sugestão: escolha um Chianti Classico Querciavalle (destaque), como o Riserva, e compare-o com o San Brunone, um vinho que poderia ser da mesma DOCG, mas, por questão de estilo, o produtor prefere chamar de Supertoscano. E depois nos conte nas redes sociais!

Saúde,

Michael Schütte

Sócio e curador de vinhos da VINDAME



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